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Educar os jovens para o amor

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A verdadeira educação sexual é a educação para o amor, e exige que se considere o ser humano na sua totalidade, com os seus afetos, com a sua vontade e com a sua inteligência.

Vimos que o amor maduro é o amor de doação; ou, dito de outro modo, que só o amor de doação é o amor verdadeiro, no qual o eu – não só enquanto identidade, mas também enquanto relação – se realiza em plenitude.

Também descobrimos que o amor é uma capacidade que evolui – ou que deveria evoluir – ao longo da vida, na medida em que se vai estruturando o eu. Há, por isso, uma progressão nessa capacidade, que, partindo do nível mais elementar – instintivo, estritamente ligado à dimensão da corporeidade (a camada mais externa…) ou, no máximo, à da afetividade – se eleva ao seu mais alto grau com o amor de doação, profundamente relacionado com a dimensão superior do ser humano: com a inteligência e a vontade (a camada mais interna…).

Também vimos que, em razão da intrínseca unidade do ser humano, a educação sexual é educação da pessoa como um todo. Portanto, também a capacidade de amar – originária da dimensão relacional da sexualidade – é algo a ser educado durante o crescimento do eu, e não deve ser deixada no nível instintivo, isto é, da pura espontaneidade; do contrário, não se realiza a progressão.

Pois bem, uma vez que a corporeidade é adestrada, tal como ocorre com os animais, a inteligência instruída e a vontade educada (os dois outros componentes especificamente humanos), pode-se perguntar, então, se há uma relação entre o amor (o verdadeiro, maduro) e a vontade. Para responder a esta questão, é preciso aprofundar-se no que significa amar. O que é, portanto, o amor?

O AMOR É UM SENTIMENTO?
A primeira resposta – que parece de todo óbvia – é que o amor é um sentimento. A palavra sentimento vem da palavra sentidos. Não é verdade que o primeiro conhecimento de um você chega justamente pelos sentidos (a camada mais externa…)? O “apaixonamento” ou, pelo menos, a primeira atração, é um fenômeno que, de fato, pode chegar a envolver a afetividade inteira; mas, em todo o caso, é totalmente independente da nossa vontade: acontece… e pronto. Por isso, o amor é certamente um sentimento; mas… será um sentimento e nada mais?

Um sentimento nasce espontaneamente; no mais das vezes, não sabemos nem mesmo por quê. Mas o sentimento também pode morrer espontaneamente… Realmente, costumamos dizer: “Antes eu sentia, agora não sinto mais”. Será que, então, aquele amor-dádiva, que exige o máximo de todas as potências do ser humano, pode ser só isso? Aquele amor que invade tão profundamente a totalidade do eu, a ponto de impeli-lo a doar-se alegremente? É claro que não. Aliás, se assim fosse, não se poderia construir nada de duradouro sobre o sentimento, já que é aleatório.

Mas, se não é isso, o que então é o amor?

“EU QUERO O BEM PARA VOCÊ”

Vimos que o amor, na sua fase inicial, é um sentimento, mas que não pode exaurir-se definitivamente nisso; superado o período do apaixonamento, deve surgir algo muitíssimo mais profundo; algo que deve envolver, evidentemente, a dimensão mais interior do homem (a camada mais interna…). Caso contrário, o sentimento apaga-se. Aqui, uma expressão bem conhecida na língua portuguesa pode ajudar: “eu te quero bem”, que equivale a dizer “eu quero o bem para você”, isto é, “eu quero o teu bem”. Analisemo-la com atenção.

EU
Eu significa o ser humano na sua integralidade, já que todas as suas dimensões – corpórea, afetiva e racional – formam uma unidade indivisível. Por isso, eu não se refere só a uma parte do ser humano, tal como os sentidos, os instintos ou as suas emoções, mas à totalidade do ser.

QUERO
É o verbo da vontade. O que a vontade tem a ver com o amor? Reflitamos.

Nas primeiras fases do conhecimento recíproco, é natural que se apresente ao outro o melhor lado do próprio caráter, de modo a mostrar-se mais atraente, esforçando-se por ocultar-lhe os defeitos. Por outro lado, é no dia-a-dia que cada um se revela como realmente é, tanto no seu lado positivo como no negativo, o que é inevitável: todos têm os seus. E isto acontece sempre, independentemente da misteriosa e espontânea atração física e da conformidade de base psicológica, absolutamente imprescindível para que se instaure um verdadeiro relacionamento a dois.

Mas se o amor fosse só um sentimento, este – nascido sem esforço diante dos elementos acima mencionados – sem esforço morreria também ao deparar com a realidade nua e crua dos primeiros defeitos do outro. É aqui que entra a vontade. E não só ela, mas também a inteligência; isto é: toda a esfera da racionalidade.

De fato, a inteligência serve para entender que ninguém está livre de defeitos e que, portanto, o outro – uma vez efetuada a escolha – é amado não só apesar dos seus defeitos, mas com todos os seus defeitos. É aqui que entra a vontade. Esta – que é a faculdade operativa – servirá para sustentar o sentimento, de maneira a não se apagar: “quero querer bem”, poderíamos dizer. Só se for assim, a escolha será consciente, livre e, portanto, verdadeiramente humana, com a vontade que alimenta o sentimento e o sentimento que revigora a vontade.

O BEM
Já vimos que o bem é justamente aquilo para que tende a vontade. Obviamente, falamos de um bem verdadeiro. Mas que significa, na prática, querer o bem de alguém? Significa querer a sua plena realização; ainda mais concretamente, significa querer ajudá-lo a desenvolver da melhor maneira possível todas as qualidades inatas que possui – todos temos as nossas –, e a adquirir aquelas outras que não possui, mas que, junto com as primeiras, são indispensáveis para levar adiante o projeto de vida que vai descobrindo dentro de si.

Ao mesmo tempo, querer o bem significa ajudar a pessoa a dominar, nos limites do possível, a bagagem de defeitos (ou um deles, pelo menos!) que todos trazem consigo. E aqui se descobre uma coisa interessante. O primeiro movimento espontâneo que sentimos ao observar um defeito no outro é, pelo menos, o de pensar – ou até mesmo de gritar-lhe na cara – que deve mudar. Isto é, pretendemos que o outro mude, sem nos determos a considerar minimamente que o outro só mudará se quiser! Aliás, jogando-lhe isso na cara dessa maneira, obtemos o resultado exatamente oposto – é experiência de todos! –: o outro, ferido na sua sensibilidade, obstinar-se-á – para afirmar-se – ainda mais no seu defeito. E então? Então é conveniente convencer-se de que o único campo, por assim dizer, jurisdicional em que alguém pode conseguir alguma coisa – e, ainda assim, nem tanto – é nele mesmo! Porque – parece banal, mas não o é de modo algum – só em tal caso sujeito e objeto coincidem. Em outras palavras, se queremos verdadeiramente ajudar o outro a mudar, devemos estar dispostos a trabalhar sobre nós mesmos. E é assim que surge aquele amor maduro que é o amor de doação: ou seja, aquela capacidade de amar que mobiliza todos os recursos do ser humano; e, em primeiro lugar, precisamente a inteligência e a vontade. Vejamos um exemplo concreto.

Se ela for uma pessoa muito impaciente e impulsiva e ele um tipo extremamente desordenado, de nada servirá que ela – justamente por ser impulsiva – o pegue pelo pescoço, ordenando-lhe a toda a hora que reponha as coisas no seu lugar: só fará piorar a situação, que, com o tempo, poderia chegar a deteriorar-se irremediavelmente. Se, pelo contrário, com humildade (atenção: não é uma qualidade obsoleta ou reservada aos religiosos; humildade é saber reconhecer a verdade, seja qual for, tanto boa como ruim), a pessoa se der conta do seu próprio defeito – não só do alheio –, começará a trabalhar sobre si mesma para manter-se mais calma e poder dizer de modo mais suave e cortês, e no momento mais apropriado, as mesmas coisas que teria dito com raiva. Assim, obterá um duplo resultado. Antes de tudo, ela própria melhorará e, assim – isto é certo –, fará com que ele queira mudar de verdade, nem que seja só por gratidão. Mesmo porque o exemplo é um grande mestre. Claro, não será algo assim tão fácil e automático: é um verdadeiro jogo de paciência e de fortaleza, que exige a capacidade de amar – e que, ao mesmo tempo a desenvolve. Os insucessos também serão muitos, mas o importante é saber que se está no caminho certo e perseverar. É óbvio que tudo isto deve ser vivido por ambas as partes (embora normalmente haja sempre um dos dois que pode “puxar” mais o outro).

Assim se constrói, dia após dia, uma relação sólida e duradoura, fundada na aceitação recíproca, no respeito mútuo e na serena confiança nas possibilidades de melhora própria e alheia.

PARA VOCÊ

Atenção: para você, não para mim! Isto significa, por acaso, que eu não devo querer o meu próprio bem?! É claro que não. Mas aqui se fala da relação de amor com o outro, com um você (já vimos, a propósito da sexualidade, que o eu não é só identidade, mas também relação; aliás, é precisamente na relação que o eu se realiza plenamente).

Pois bem, este para você projeta-nos categoricamente para fora de nós mesmos, em direção ao outro. É um salto de qualidade do amor maduro; é o deslocamento do baricentro do eu para o você (a dimensão cósmica do amor…). É aquele passo que nos torna capazes de não mais dizer o “você é meu (minha)” do amor de posse, mas o “eu sou seu (sua)” do amor de doação. É, enfim, a descoberta extraordinária de que a felicidade pessoal não pode ser alcançada quando buscada diretamente, com a preocupação posta unicamente em nós mesmos, mas, sim, quando – quase esquecidos de nós – a doamos ao outro!

PERSEVERAR
É óbvio que um percurso deste gênero não se improvisa, nem é possível realizá-lo sempre com perfeição. Haverá erros, emperramentos, escorregões ou verdadeiros tombos…, mas o importante não é nunca cair: o importante é querer levantar-se sempre, sabendo aonde ir! Porque é óbvio que muito dificilmente poderemos percorrer um itinerário e alcançar uma meta por puro acaso ou guiados tão somente pelo instinto; o ideal é definir tudo com antecedência. De fato, os instintos do homem não possuem uma auto-regulação, e, por isso, acabariam por extraviar-se com rapidez.

Mas, se tudo é tão lógico e coerente (e a cabeça o entende!), por que ocorrem então as quedas?

Primeiro porque a inteligência, se não for bem guiada e iluminada, pode facilmente cair em engano, trocando a verdade pelo erro, com conseqüências mais ou menos graves no comportamento prático. Além disso, é preciso considerar, sobretudo, que a vontade é muitas vezes fraca. Isto é, mesmo perante uma clara compreensão do percurso, a vontade pode não querer… E, assim, com a vontade de um lado e a inteligência do outro, a pessoa fica dividida e, certamente, não se realiza na unidade nem propaga ao redor de si aquela serenidade e aquela paz que provêm da harmonia interior. É por isso que a educação sexual – que, deste modo, é educação para o amor – é, antes de mais nada, educação da inteligência e da vontade.

Então, aquele caminho a ser construído – que tem início na infância, sob a guia amável dos educadores (os pais principalmente) – torna-se, agora, um caminho a dois, no qual cada um ajuda o outro a não cair ou a levantar-se.

PREPARAR-SE
Mas… quando falaremos sobre sexo?

Calma. Se quisermos que a construção fique de pé, devemos ter a paciência de começar pelos alicerces. E os alicerces estão nas profundezas, não na superfície.

De fato, pode-se cair na ilusão de iniciar um caminho a dois a partir da relação sexual. Não que o sexo seja um fato superficial em si mesmo. Pelo contrário! O que acontece é que o sexo se torna superficial, desnaturado até, justamente quando é privado da busca e da construção – às vezes longa e fatigante –, do suporte do compromisso psicológico, da comunhão de idéias, do compartilhamento de valores que constituem a única base sobre a qual é possível edificar um compromisso verdadeiramente sólido e duradouro.

Sem esse trabalho de busca e construção, a relação a dois – após um primeiro fogaréu intenso – pode reduzir-se, breve e facilmente, a um amontoado de cinzas. Esse período de preparação chama-se namoro.

Leda Galli Fiorillo
Professora de biologia e especialista em Bioética
Fonte: Genitori.it






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