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Educar para a caridade

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A tarefa de educar os filhos para a vida de amizade está estreitamente vinculada à de educá-los para o amor a Deus. Ambas se complementam entre si, e isso por diversas razões.

A primeira e maior já foi enunciada pelo Apóstolo São João: 'Quem não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar a Deus, a quem não vê?' (1 Jo 4, 20).

Em última análise, a grande razão para amar os outros homens é amar a Deus, que os ama a tal ponto que deu a sua vida por eles, na Cruz. Para o ateu, os outros são nada mais nada menos que “o inferno”, como Jean-Paul Sartre escreve numa das suas principais obras. Para o agnóstico ou mesmo para o cristão que perdeu a perspectiva da fé, são instrumento de realização pessoal: procurará a “amizade” se lhe servir para alcançar os seus interesses. Ou então, limita-se a mera reciprocidade: só se eles o amarem é que os ama de volta. É o que Cristo condena: Se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Também não fazem isso os pecadores?
'E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis a mais? Também não fazem isso os gentios?' (Mt 5, 46-47).

Só o cristão é que se dispõe de verdade a esse querer de benevolência gratuito exigido pela verdadeira amizade. Os antigos tinham uma idéia muito clara do ideal da amizade, como nos recorda o Autor, referindo-se especificamente a Aristóteles e Platão. Mas faltavam-lhes as condições reais para vivê-lo.

É apenas quando se tem vida de fé e está presente em nós a caridade, que se torna possível dispormo-nos a querer o bem do amigo sem nenhum tipo de desvirtuamento egoísta: “Quando se coloca o amor de Deus no meio da amizade – diz-nos São Josemaria Escrivá –, este afeto se depura, se engrandece, se espiritualiza; porque se queimam as escórias, os pontos de vista egoístas, as considerações excessivamente carnais. Não o esqueças: o amor de Deus ordena melhor os nossos afetos, torna-os mais puros, sem diminuí-los”1. Se se quer educar os filhos para uma vivência plena do amor de amizade, é preciso formar neles, ao mesmo tempo, a caridade.
(1) Sulco, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 828.

A segunda razão
é que amar os outros por Deus é também a única forma de evitar a ponta aguda e envenenada das desilusões, porque, quer se queira, quer não, não há homem ou mulher à altura das nossas legítimas aspirações. Todos os seres humanos têm defeitos e limitações, que na vida de amizade são fonte, uma e outra vez, de decepções. É só quando uma pessoa ama os amigos por Cristo que passa a olhá-los como o Senhor os olhava: como doentes a serem curados, como ignorantes a serem educados, fracos a serem sustentados, crianças a serem formadas. Os sãos não têm necessidade de médico, mas os enfermos (Mt 9, 12). A caridade dota a amizade de um forte senso de responsabilidade, de um firme desejo de suprir de alguma forma essas carências. Ao educar para a amizade, é preciso mostrar desde cedo que não se trata de uma relação bilateral eriçada de direitos e deveres, mas de uma tarefa de serviço.

A terceira razão
é que, para prestar este serviço de amizade, é preciso dar exemplo de conduta e praticar o antiqüíssimo costume cristão, recomendado já pelo Senhor nos Evangelhos, da correção fraterna (cfr. Mt 18, 15-17). Não bastam, nem de longe, essas considerações vagas que estão tão de moda hoje em dia acerca da importância de “estar sempre evoluindo”, que aliás convivem perfeitamente com os mais variados egoísmos, insinceridades, desleixos e sensualismos. É necessário ter um ideal de conduta objetivo, real, concreto, que molde de verdade o comportamento: e esse ideal foi dado aos homens na pessoa de Cristo, o próprio Deus humanado.

Quando há esse ideal de conduta, existe também um critério objetivo para julgar as ações dos amigos e prestar-lhes o serviço da correção fraterna. Não há dúvida de que a benevolência própria da amizade quer, em primeiro lugar, o bem pleno do amigo, que seja melhor, que seja um ser humano mais pleno e mais cabal. Mas... que significa “ser melhor”, ser “integralmente humano”? Não seria nada fácil responder a essa pergunta sem a “regra objetiva de humanidade mínima” que são os Dez Mandamentos, e sobretudo sem esse Modelo de Humanidade que é Jesus Cristo. Só uma pessoa dotada de boa formação cristã tem a pauta necessária para mostrar aos seus amigos a direção em que podem e devem melhorar. “Cristo, na mesma situação, teria agido assim?”

Hoje, que as ideologias de direita e de esquerda tendem por igual a difundir um clima social de receio e desconfiança para com as outras pessoas, é especialmente urgente essa nobreza cristã. Diante da sociedade das indiretas, dos diz-que-diz-ques, dos falatórios pelas costas, da “denúncia” impostada em modo de vida – da covardia, numa palavra –, os cristãos têm mais do que nunca a necessidade de ser amigos leais, que falem pela frente, que mostrem aos seus amigos o caminho reto
. Mais do que nunca, têm obrigação de não rebaixar a sua conduta para adaptá-la à do ambiente, de tomar consciência de que são “portadores de luz”, de uma doutrina e uma orientação de vida que são “salvadoras” no sentido mais estrito da palavra. E a adolescência, momento das revoltas nobres e do despertar do amor, é o momento-chave para mostrar-lhes isso.

Por fim, como aponta o autor deste livro2, a adolescência é também a idade dos extravios de conduta e de personalidade, a idade em que se moldam ou se perdem os ideais nobres, e quem não tem personalidade própria para comunicar aos amigos acabará por ser influenciado pela falta de personalidade destes.
Tem-se apontado muitas vezes que o jovem de hoje, da “geração Coca-cola”, tem como supremo ideal de vida o Big Mac e como máximo horizonte cultural os videoclipes da MTV. Embora seja uma caricatura, não deixa de ser verdade que existe uma aguda falta de interioridade pessoal; em conseqüência, as pessoas têm poucos amigos justamente por terem uma intimidade banalizada, que não vale a pena compartilhar.
(2) Geraldo Castilho, “Educar para a amizade”, Quadrante, São Paulo, 1999.

Ora, é sobretudo a relação com Deus que confere à pessoa profundidade e riqueza interior, e assim a faz ter algo para dar. A adolescência marca a transição da piedade infantil, geralmente exterior, para a vida interior do adulto. Se se aproveita esse momento para ajudar o jovem a compreender a relação pessoal com Cristo e o conteúdo das verdades de fé e a criar hábitos de oração e freqüência dos sacramentos, ele passará a ter um sentido pessoal inabalável para a sua vida e uma estrutura de sustentação: uma personalidade autêntica, em suma. Tornar-se-á capaz de resistir à pressão corrosiva do ambiente e poderá tornar-se um foco difusor da Boa Nova cristã, que é o que todo o cristão está chamado a ser. E como? Precisamente através da sua vida de amizade.

Há, portanto, uma estreita relação entre a educação para a amizade e a educação para a caridade.

A caridade, guia, retifica e aprofunda a amizade, a tal ponto que só uma amizade orientada pelo amor a Deus pode merecer o nome de amizade autêntica. E, por outro lado, a vida de amizade torna-se então escola do amor a Deus. Porque a santidade nada mais é, em certo sentido, do que a amizade com Jesus Cristo.

Quadrante
Fonte: In: Geraldo Castilho, “Educar para a amizade”, Quadrante, São Paulo, 1999





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